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  • Grazielle e Rúben

Série Desvendando Macaé : Os Goitacá

Artigo publicado no jornal "O Diário da Costa Do Sol" de 02/03/2020

https://cliquediario.com.br/artigos/serie-desvendando-macae-os-goitaca





Muitos foram os viajantes europeus que passaram por nossa região e registraram diversos fatos históricos, geográficos e científicos, em geral.


Mas quando falamos sobre colonização e povoamento da região em que se encontra Macaé, não podemos nos furtar de refletir e falar sobre os povos originários dessa região, os Goitacá.


Se fossemos citar todos os escritos sobre os Goitacá, seria necessário escrever um livro, como nossa intenção é apenas enriquecer o texto com algumas fontes relevantes, usaremos aqui apenas alguns escritores que fizeram relatos sobre esse tema.


Fazendo um estudo sobre a tribo Goitacá, conclui-se que eles não fazem parte da linhagem indígena dos Tupi Guarani.


São uma das raras tribos indígenas da casta dos ‘Tapuia' (palavra de origem Tupi Guarani, que significa: bárbaros, os outros que não somos nós), a povoar parte do litoral brasileiro, considerando que o território costeiro do Brasil era habitado quase exclusivamente pelos povos Tupi Guarani.


Lembrando também que, segundo a norma culta da língua portuguesa vigente, quando nos referimos aos povos indígenas, usamos o nome da tribo no singular, pois tribo é o coletivo dos indivíduos indígenas que a compõe.


Portanto, o nome correto é os Goitacá.


Os Goitacá viviam em uma região de difícil acesso,  na parte continental, por conta das enormes lagoas e regiões alagadas, com suas terras praticamente isoladas e  pela sua costa marítima,  nada favorável ao embarque e desembarque de navegações.


Esses indígenas foram dizimados, assim como diversas outras tribos indígenas das Américas e com eles, sua cultura.


Sua língua, morreu junto com eles e é até hoje uma incógnita a tradução fiel de algumas palavras, porém, sabe-se que o nome Goitacá tem origem na língua Tupi Guarani e pode ter dois significados: 'homem que sabe nadar' ou 'homem corredor'.


Em 1556, André Thèvet narrou alguns fatos sobre os Goitacá. Em seu livro 'Singularidades da França Antártida', ele escreve que os Goitacá, tão logo capturassem um inimigo, imediatamente o trucidavam e o comiam, com pedaços quase crus, assim como comiam outras carnes.


Ele presenciou um fato muito curioso,  quando um Goitacá que foi capturado por uma tribo inimiga, já de joelhos, recebeu um golpe de borduna (arma indígena) e, mesmo com a cabeça aberta, com uma ferida sangrando, levantou-se e atacou seu algoz.


Thèvet relata que não acreditaria naquilo, se não tivesse visto com seus próprios olhos.


Em 1578, Jean de Lèry, publicou em seu livro 'Historia de uma viagem feita ao Brasil', relatos sobre os Goitacá, descrevendo-os como apreciadores de carne humana, considerada a gente mais bárbara, cruel e indomável de todas as nações que habitavam o novo mundo.


Selvagens, estranhos e ferozes que não conseguiram viver em paz, nem entre si mesmos e mantinham-se em guerra permanente com seus vizinhos e com os estrangeiros.


Em 1627, Frei Vicente do Salvador publicou o primeiro livro que falava exclusivamente sobre a História do Brasil.


No terceiro capítulo desse livro ele disserta sobre os 'Aitacazes', uma das variações linguísticas do que conhecemos hoje como: Goitacá.


Em sua dissertação, o Frei revela que eles eram homens mais aquáticos que terrestres, praticamente impossíveis de dominar, pois quando sentiam-se acuados, metiam-se nas lagoas, onde não havia possibilidade de entrada a pé, nem a cavalo.


Ele nos revela também que eram excelentes nadadores, que pegavam peixes com as mãos, mas o mais incrível, pasmem, é que eles pegavam tubarões à mão, enfiavam-lhe um pau de mais ou menos um palmo na boca com uma mão, e com a outra tiravam-lhe as vísceras, levando-o a morte.


Depois levaram o tubarão para terra firme, com a finalidade de se alimentar da carne e, dos dentes faziam colares e  as pontas de suas lanças, que eram peçonhentas e mortíferas.


Além de toda destreza aquática, o Frei revela que os Goitacá eram fortes e leves a ponto de caçar veados nas campinas a próprio punho, assim como caçavam também onças e outros felinos ferozes.


O Frei finaliza esse capítulo de seu livro dizendo que ninguém que tentou enfrentar os Goitacá, voltou com vida pra contar a história.


Outro escritor que escreveu sobre os índios Goitacá, foi Anthony Knivet, que em 1591, saiu da Inglaterra, seu país natal, acompanhado por piratas e foi abandonado no Brasil, entre índios canibais e colonos selvagens.


Em seu livro ‘História Pitoresca das Viagens', descreve que os 'Ouetacás'  (outra variação linguística para o nome Goitacá), não cessavam de guerrear com seus vizinhos e não recebiam estrangeiros entre eles, para negociar.


Quando se julgavam menos forte que seus oponentes, fugiam com a ligeireza dos veados.


Ele descreve que os Goitacá tinham olhar feroz, fisionomia brutal, cabelos cumpridos na altura da cintura e um círculo raspado na parte frontal da cabeça (na franja).


Ele relata também que a língua deles era totalmente diferente dos outros índios da vizinhança.


Os Goitacá, segundo diversos relatos, tinham um grande apetite pela carne branca dos europeus.


Em diversos estudos revela-se que, seus vizinhos, Tupi Guarani, que também eram antropófagos (canibais), só comiam carne humana em rituais de guerra, os Goitacá

diferentemente deles, tinham prazer em se alimentar de carne humana e o faziam como prática alimentar.


A carne humana para eles era utilizada como mantimento!

Simão de Vasconcellos foi um clérigo jesuíta, que veio para o Brasil ainda criança, no final do século XVI.


No século XVII escreveu o livro 'Vida do Padre João de Almeida da Companhia de Jesus na Província do Brasil'. Nesse livro (considerado uma repetição  do livro 'Tratado descritivo do Brasil', de Gabriel Soares, publicado em 1587), ele discorre que nossa região, dizendo que era um lugar suspeito e arriscado pra qualquer homem que necessitasse aportar por aqui, ele relata que a ‘casta dos Goitacaz' não mantinha paz firme com ninguém e percorria constantemente todo o espaço tanto o sertão dos campos como a parte marítima (aquática).


O padre Simão conta que todos que encontravam com os Goitacá viravam pasto, pois a carne humana para eles era a melhor iguaria.


Ele, também em seus escritos, relata que os Goitacá eram capazes de pescar tubarões na mão, dando-lhe um soco no focinho, quando atordoado o tubarão abria a boca, era-lhe enfiado um pau, e o tubarão engasgado era trazido à costa para ser devorado.


Lembrando que todos os índios Goitacá usavam colares com dentes de tubarão, sinalizando seus dotes de caçador.


Os Goitacá não tinham roças nem criações de animais, se alimentavam exclusivamente de caça, que empreendiam com suas mãos e com seus enormes arcos e lanças. Na alimentação dessa tribo não estava incluso farinha, mandioca, legumes ou alimentos parecidos.


Haviam três espécies diferentes dessa linhagem indígena, os Goita-Goaçú, os Goitacá Jacoritó e os Goitacá Mopi, todos agigantados, selvagens e tragadores de carne humana, que lutavam entre si e devoravam-se, simultaneamente.


Sua moradia eram as palafitas às margens das lagoas, especialmente da Lagoa Feia, as palafitas eram pequenas, cobertas por palha, com portas pequenas, onde os moradores entravam engatinhando.


Esse autor nos revela também  que os Goitacá dormiam no chão, que toda sua riqueza se consistia em seu arco e que seu modo de vida era percorrer constantemente as lagoas, o mar, os rios e a costa caçando feras, as quais comiam mal assadas, escorrendo sangue.


Já o escritor Júlio Feydit, em seu livro ‘Subsídios para a História dos Campos dos Goitacases’, explana uma outra visão sobre essa tribo indígena. Ele escreve que os Goitacá não eram tão ferozes como descrito em muitos livros da literatura mundial.


Para ele esses indígenas apenas defendiam suas terras dos europeus, que aqui chegavam sempre ávidos pela exploração desenfreada de riquezas naturais, a qualquer custo.


Segundo Julio, os Goitacá sempre foram muito valentes, porém, também hospitaleiros com fugitivos e náufragos.


Eram muito vingativos e quanto mais tivessem que esperar pra dar o devido ‘troco’, maior era sua fúria.


Exatamente pelos europeus saberem que era impossível domar os Goitacá, fizeram uma estratégia de guerra biológica,  vitimando mais de 12 mil indivíduos e levando-os a morte.


Ainda no século XVII, os indígenas,  sem imunidade para tal, foram contaminados com varíola, através de objetos deixados, intencionalmente, pelos europeus, próximo às suas moradias e no entorno de seus trajetos, extinguindo assim os grandes e temidos índios Goitacá.


Podemos perceber, pelas citações desse texto o quanto era interessante e curioso o modo de viver dos Goitacá, a ponto de chamar a atenção dos viajantes e visitantes que aqui estiveram.


Esses ilustres indígenas, que são considerados como povos originários dessa região, onde hoje se encontram Macaé, Quissamã, Carapebus, Campos dos Goytacazes, entre outros município e, nos encantam com sua história até os dias atuais.




Grazielle Heguedusch – Turismóloga, Pós graduada em História e Cultura no Brasil. Criadora do Almanaque Macaé Turismo e do Desvendando Macaé. Autora do Be-a-bá do Receptivo Turístico de Macaé. Pesquisadora do OMM Observatório da Memória Macaense. www.almanaquemacaetur.com.br

Rúben Pereira – Musico, Poeta e Memorialista. Criador do Almanaque Macaé Turismo e do Desvendando Macaé. Gerencia o OMM Observatório da Memória Macaense.  Co-autor do Be-a-bá do Receptivo Turístico de Macaé. www.almanaquemacaetur.com.br

Foto:Acervo do Arquivo Nacional

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