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  • Grazielle e Rúben

Série Desvendando Macaé: Carukango, o Zumbi de Macaé

Artigo publicado no jornal "O Diário da Costa Do Sol" de 11/05/2020

https://cliquediario.com.br/artigos/serie-desvendando-macae-carukango-o-zumbi-de-macae




Africano, natural de Moçambique é comprado no Porto de Macahé, ainda no início dos 1800, como escravo para trabalhar de sol a sol nas terras da família Pinto na serra macaense. Era um negro de grande poder e ascendência sobre os outros escravos. Era baixo, manco da perna esquerda e corcunda. Nunca aprendeu outra língua senão a sua natal. Muito respeitado por seus pares e tido como feiticeiro pelos senhores das fazendas. Carukango foi açoitado diversas vezes, no tronco da Fazenda Sant’Anna e depois de muito sofrer no ‘bacalhau’* resolve fugir e criar um território livre da escravidão.

Sendo grande conhecedor da região instala-se num ponto estratégico e de difícil localização e acesso. Cria o Quilombo do Carukango. Muitos dizem que ficava na serra do deitado, outros confirmam que ficava lá pros lados de Macabu. O certo é que o Quilombo existiu e foi lugar de atração para muitos negros que fugiam e iam viver o sonho de liberdade com Carukango e sua gente.

Muitas investidas do poder policial da época para achar o Quilombo e nada. Ninguém conseguia achar Carukango e enquanto isso na calada da noite diversas fazendas no Frade, Crubixais (atual Glicério) e Neves (atual Córrego do Ouro), tiveram suas senzalas devastadas e o casarão invadido.


A família Pinto foi uma das primeiras a terem sua fazenda invadida e seu progenitor morto pelas forças ocultas que andavam a cometer crimes e assaltos na região. Uma noite uma escrava reconheceu o Carukango comandando a tropa que atacava e logo todos falavam que os negros do Quilombo de Carukango é que estavam a invadir fazendas e senzalas. Muitos reforços policiais para procurar o Quilombo e nada. Ninguém conseguia achar o Quilombo e os Quilombolas.

Até que um dia as tropas comandadas pelo Dr. Antonio Antão de Vasconcellos prenderam um negro nos caminhos ocultos da serra e dele, após muita tortura, arrancaram a localização exata do Quilombo. Para lá marcharam em 31 de março de 1831 e após armar grande operação por toda noite e cercar todo abrigo dos amotinados a tropa atacou no dia 01 de abril e foi respondida por uma chuva de peças de bambu, pedras e balas. Uma buzina foi ouvida e dezenas de negros saíram da casa que ali havia atirando para todos os lados. Uma carnificina se deu e todos que saíram foram mortos.

De repente Carukango surge de dentro do abrigo, com uma batina de padre preta e um crucifixo e faz todos pararem boquiabertos, enquanto vinha andando abraçado no crucifixo, então, foi em direção de um filho da família Pinto que ali estava compondo a tropa e sacou uma arma de dois canos, que estava escondida dentro da manga da batina. Mirou, atirando certeiramente na cabeça do jovem.

Carukango fazia justiça com as próprias mãos. Então, a tropa atacou ferozmente, matando-o e a todos que aparecereceram. Pouparam apenas as mulheres e crianças. Esta é a história do Quilombo que resistiu por décadas na serra macaense tornando-se um dos mais imponentes do estado do Rio de Janeiro.

Carukango foi nosso Zumbi, o general do Quilombo. Um símbolo de luta pela liberdade em terras macaenses.


*Bacalhau: Espécie de porrete ao modo chicote com farpas de madeira e outras pontas para marcar a pele do açoitado.




Grazielle Heguedusch – Turismóloga com Pós graduação em História e Cultura no Brasil. Criadora do Almanaque Macaé Turismo e do Desvendando Macaé. Autora do Be-a-bá do Receptivo Turístico de Macaé. Pesquisadora do OMM Observatório da Memória Macaense.


Rúben Pereira – Musico, Poeta e Memorialista. Criador do Almanaque Macaé Turismo e do Desvendando Macaé. Gerencia o OMM Observatório da Memória Macaense. Co-autor do Be-a-bá do Receptivo Turístico de Macaé.

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